Sonho interrompido
   Flávio  Saraiva  │     16 de fevereiro de 2017   │     9:28  │  0

Unknown-1Há três anos, Lucimério Campos realizava um sonho de criança ao ser nomeado delegado de polícia do Estado de Alagoas, depois de ter enfrentado disputado concurso público e um curso de formação policial que testou a sua capacidade de resiliência.

Tive a oportunidade de acompanhá-lo na formação e nos primeiros trabalhos na condução de inquéritos policiais de grande repercussão que logo mostraram a sua capacidade e forma de trabalho.

Lucimério e mais outros colegas de sua turma conseguiram dinamizar a delegacia de homicídios e outras especializadas da Capital, suscitando a esperança de que a polícia civil estaria se renovando com profissionais de muita qualidade, processo normal de qualquer instituição.

Há quem diga que “em terra de cego quem tem um olho é rei e quem tem dois é mal visto”; e assim começaram a surgir reclamações ao trabalho dos jovens delegados, principalmente daqueles que não queriam enxergar a transformação natural que ocorre com a renovação de efetivo e processos em qualquer instituição. Mas, a instituição policial é muito conservadora e vanguardistas são mal vistos.

No processo eleitoral para a diretoria da associação de classe, a ADEPOL, os jovens delegados se engajaram na tentativa de renovação da presidência ali instalada há 12 anos. Na disputa eleitoral, a vontade de mudança dos jovens delegados fora confundida com radicalismo, principalmente por aqueles que navegavam na zona de conforto sem nenhuma cobrança efetiva dos associados. Assim, cobrança de prestação de contas fora confundida com acusação de improbidade, exigências de mudanças no processo eleitoral confundidas com ameaças e, ao final, vencedora a chapa preferida da gestão, permanecera “tudo como dantes no quartel de Abrantes”.

Com tristeza, na tarde de 15/02, através de um aplicativo de mensagens, Lucimério Campos comunicava a decisão de interromper seu sonho de infância ao pedir demissão do cargo de delegado de polícia civil do Estado de Alagoas. Não se sentia satisfeito vivenciando o enfraquecimento da polícia civil e “desmonte que vem do governo e de nossa própria casa”(…) “Talvez, sejamos o único Cargo de Estado onde os próprios pares entregam suas atribuições (prerrogativas) em troca de interesses pessoais de poder”.

Com o otimismo próprio de um sonhador, Lucimério Campos acredita que seus competentes colegas que ficaram transformarão a polícia civil, e conclama: (…) precisamos acordar e exercer nossas virtudes. Não podemos ser consumidos por esse complexo de vira-latas. Ainda há tempo pra categoria se impor e assumir seu papel de protagonista na sociedade”. Finaliza com um agradecimento “pela lição de vida!” obtida na breve carreira policial.

Alguns que insistem em desmerecer a nobreza alheia, e que não conseguem enxergá-la no espelho, irão plagiar o Capitão Nascimento do filme Tropa de Elite e dizer que o delegado “pediu para sair”.

Saiu, mas deixa uma lição de vida e muitos amigos orgulhosos e saudosos.

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