Terra dos carteis
   Flávio  Saraiva  │     4 de fevereiro de 2016   │     21:39  │  0

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Por sugestão da blogueira da Folha de São Paulo Sylvia Colombo, além do interesse em acompanhar a expansão do narcotráfico no México, assisti ao documentário “Cartel Land”, indicado ao Oscar 2016, disponível no Netflix.

O documentário, em síntese, descreve a falência do governo mexicano no combate aos grupos criminosos traficantes de drogas, intitulados de carteis, denominação logo associada à Colômbia e a Pablo Escobar. Sem ter a quem recorrer, habitantes dos territórios ocupados por criminosos ligados aos carteis resolvem organizar a própria defesa, compondo grupos armados chamados de “autodefensas”.

Acostumado a preservar vidas no exercício de sua profissão na comunidade de Michoacán, o médico e líder Dr. Mireles foi convocado para comandar as “autodefensas”, missão logo aceita e posta em prática com ele mesmo à frente empunhando armas.

De início, as “autodefensas” tiveram o apoio da comunidade defendida, mas, repetindo cenários de outras experiências de resistência, os militantes ultrapassaram a linha imaginária que separa a defesa da arbitrariedade, agindo como se fossem os criminosos que combatem, gerando fortes protestos dos cidadãos receosos com as atitudes de seus defensores.

Os protestos surgiram justamente no tempo em que o Dr. Mireles passara internado em hospital cuidando dos graves ferimentos decorrentes de um acidente aéreo, do qual carrega sequelas. Não prosseguirei “contando o filme”, melhor que assistam, é assustador.

Mas o que eu pretendia “contando esse filme” é mostrar que movimento semelhante ocorre aqui no Brasil, com a proliferação de milícias para combater traficantes de drogas, principalmente no Rio de Janeiro, onde são mais visíveis. Nos anos 80, havia um comercial da vodca Orloff nas redes de televisão em que alertava para o efeito da ressaca provocada pelas marcas concorrentes, no qual um bêbado à mesa era a sua fiel representação, finalizado com a chegada de um sósia saudável do ébrio, recomendando a um cliente para trocar a marca da bebida, seguido do clichê: “Eu sou você amanhã”. E assim surgiu o “efeito Orloff”, muito usado para comparar a economia do Brasil com a Argentina.

Pois bem, o “efeito Orloff” poderá ocorrer, ou está ocorrendo, desta vez entre Brasil e México, quando comparamos o comportamento de grupos criminosos mexicanos e brasileiros, aproveitando-se da apatia do governo no combate a eles. Lá os grupos se organizam em cartéis – Sinaloa, Juares, Tijuana; aqui são as facções criminosas formadas em presídios – PCC, ADA, Comando Vermelho, Terceiro Comando etc.

Para substituir o estado na defesa dos cidadãos os mexicanos criaram as “autodefensas”; os brasileiros, as milícias, com motivações e consequências bastante assemelhadas.

Voltando ao cinema, lembro de outra obra – Plano de Fuga, com Mel Gibson, baseada no dia a dia de uma prisão mexicana, onde o estado perdeu a gestão completamente, deixando-a a cargo de criminosos que negociam tudo. No Brasil assistimos ao filme Carandirú, de Hector Babenco, mostrando como funcionava o então maior complexo prisional da América Latina, implodido após reconhecimento da falência do modelo de gestão e a execução de 111 presos durante operação policial para controlar rebelião generalizada. A realidade (inspiradora da ficção) do dia a dia do sistema prisional brasileiro é apresentada no noticiário nacional através de rebeliões, superlotação, assassinatos e fugas de presos, assegurando que quem menos manda é o estado.

O México, terra dos carteis, é o Brasil de amanhã?

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