Matadores de gente
   Flávio  Saraiva  │     27 de novembro de 2015   │     8:05  │  2

MATADORES DE GENTE

Pesquisando o comportamento de narcotraficantes brasileiros e internacionais, nota-se a participação de importante personagem na resolução de problemas relacionados com a lucrativa atividade criminosa – o pistoleiro. Evoluindo na pesquisa encontrei referência a um livro de autoria da socióloga da Universidade Federal do Ceará, Peregrina Cavalcante, Matadores de Gente – Como se fabrica um pistoleiro, não mais disponível à venda nos sites das grandes livrarias, que trata desse tipo criminoso.

Em entrevista, a professora lembra que precisou morar junto às comunidades onde existem pistoleiros para “sentir como as pessoas convivem com o fato e como se dão os crimes”.

Através de depoimentos, a professora conseguiu definir que o pistoleiro começa a matar muito cedo, é perigoso, astuto, covarde e frio, sem disposição para brigar com ninguém, os esforços são concentrados apenas para matar. Acrescenta que “os garotos, moradores das fazendas, desde muito jovens, aos 15 anos de idade, começam a treinar para se tornarem pistoleiros”.

A religiosidade é outra característica forte do pistoleiro nordestino, presente também nos matadores a serviço do narcotráfico, que rezam antes das execuções e agradecem pelos resultados conseguidos, resumida na frase atribuída a um deles: “Antes de atirar, eu sempre me benzo com a arma, para dar tudo certo.”

Voltando ao narcotráfico, no documentário Guerra às Drogas, um pistoleiro colombiano a serviço do Cartel de Medelín, descreve o seu ritual para matar. A definição pelo uso de arma longa ou curta se dá em razão do grau de dificuldade e proteção apresentada pelo alvo; introdução de cianureto no cartucho, acreditando na letalidade do composto químico em contato com qualquer ferimento na pele; banho do cartucho em água benta, mais uma oração: “que a divina sorte faça essas balas consagradas  acertarem o defunto sem falhar e que sua morte não seja violenta, que a pessoa não sofra, amém”, em seguida o sinal da cruz.

Depois, outra oração: “ao Santo Juiz para defesa de minha alma e meu corpo; se olhos tenham, não me vejam; se mãos tenham, não me agarrem; se pés tenham, não me sigam; que meu corpo não seja preso e nem minhas mãos amarradas, nem mesmo seja ferido nem meu sangue derramado, nem minha alma seja perdida; novo sinal da cruz.

Conheci e prendi um pistoleiro, não muito novo, com todas as características elencadas pela pesquisadora e as apresentadas no documentário, obtendo dele a narrativa de seu ritual para matar a vítima que sequer conhecia: “chego perto, anuncio o nome da pessoa, obtenho a confirmação, afirmo que trago uma encomenda, saco a arma e atiro, confirmo a morte, faço o sinal da cruz e saio agradecendo a Deus por mais um serviço feito”.

O matador de gente é produto descartável para seus contratantes, sem direito a reciclagem e reposto com muita facilidade, a oferta é cada vez maior.

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COMENTÁRIOS
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  1. Martha Mártyres

    No início de minha carreira no rádio, tive a oportunidade de entrevistar um pistoleiro. Perguntei o que o levava a matar uma pessoa que ele não conhecia, nunca lhe tinha feito mal algum, enfim, que era uma pessoa como ele, com família, etc… Ele sorriu com o canto da boca de lábios finos e me respondeu: “- Dona, quando eu recebo o dinheiro e o retrato, que “óio”, já “tô” com ódio!”

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