A INFORMAÇÃO QUE CONDENA
   Flávio  Saraiva  │     28 de setembro de 2015   │     9:12  │  0

DEDO DUROCostuma-se afirmar que a atuação do policial acontece no limbo entre a legalidade e o crime, em razão, mais das vezes, do necessário contato com criminosos que não acontece apenas no momento da prisão.

O grau de complexidade das investigações de crimes como homicídio, tráfico de drogas, roubo a banco, veículos e cargas, determina a necessidade de informações só encontradas através de interceptações das ligações telefônicas e mensagens, denúncias anônimas, delações premiadas e recrutamento de informantes – comumente chamados de dedo duro, cagueta, X-9, chumbeta etc.

Nos acostumamos com as gravações das conversas de criminosos apresentadas nas matérias jornalísticas, sentimento extensivo aos investigadores que também se acostumaram com o confortável meio de investigação, fato que motivara mais cuidados por parte dos investigados que, mesmo assim, não conseguem administrar a compulsão pelo uso do telefone.

A delação premiada ocorre em fase mais adiantada da investigação, quando já formatado o dimensionamento da organização criminosa. A denúncia anônima é ato voluntário que foge à administração de investigadores. Devem ser acrescentadas as ações controladas devidamente informadas à Justiça, nas quais, a grosso modo, espera-se pelo melhor momento da captura de criminosos, bem como, a infiltração de policiais nas organizações criminosas assumindo outra identidade. Essa última, bem mais frequente em filmes do que na realidade.

Resta a formação da rede de informantes, atividade nebulosa não regulamentada por procedimentos da instituição policial, que exige o contato mais aproximado do policial com criminosos. Na maioria dos casos o policial que tem mais visibilidade pelo seu trabalho é procurado pelo informante, que se aproxima para “entregar” concorrentes ou patrões que não cumpriram com as obrigações “trabalhistas”.

O trabalho do policial bem informado é logo reconhecido, transita nos gabinetes de diretores, é peça chave na elucidação de crimes de repercussão, alivia a pressão que seus chefes carregam nos ombros, aparece nas coletivas de imprensa… É o cara!

A relação entre policial e informante logo se exaure com a prisão ou morte deste último, em razão da continuidade no crime ou assassinado pelos dedurados. Informantes puros e idealistas são raros, não ganham nada com a colaboração.

Lá na frente, um desses chefes ouve de um informante concorrente ou criminoso saído da cadeia que aquele policial bem informado era na realidade parceiro em crimes e, constatando a receptividade do superior, vai destruindo a imagem do profissional. A partir dali o policial virou bandido e sua condição de bem informado tinha razão simples – era da quadrilha e tinha interesse em eliminar a concorrência.

Vi muitos bons policiais presos, enfrentando processos administrativos e incompreensões; linchamento institucional que motivou suicídio, problemas psiquiátricos, alcoolismo e outros males. Quem consegue sobreviver, busca abrigo na omissão, é mais fácil para um condenado .

E o chefe? Continua a ouvir histórias.

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