REFÉNS DO MEDO
   Flávio  Saraiva  │     16 de agosto de 2015   │     20:05  │  2

REFENS DO MEDOIniciamos a semana com a certeza de que seremos bombardeados por reportagens que mostram a ousadia bandida em escalada, termo usado pelos profissionais do jornalismo quando anunciam as manchetes. Será mostrado o andamento das investigações sobre a chacina de quinta-feira (13/08) que resultou na morte de 18 pessoas nas cidades de Osasco e Barueri em São Paulo. Com isso, sai da pauta outra chacina, a de Manaus, que contabilizara 37 mortes violentas no final de semana de 17 a 19/07.

As explosões em caixas de autoatendimento nem despertam mais a curiosidade de ninguém, uma vez que muda apenas o local da ocorrência e grau de violência empregado, ou seja, a quantidade de explosivos, o número de criminosos, a ousadia e as táticas operacionais utilizadas. Lá mesmo em São Paulo, um grupo criminoso atirou em base da polícia militar e atravessou ônibus na rota de fuga; faltou incendiá-lo, não conformidade que deverá ser cobrada pela alta direção bandida.

E por falar em direção, os carros fortes de transporte de valores estão sendo interceptados por tiros de metralhadora do calibre .50, aterrorizando a vida da guarnição de segurança; a proteção balística não suporta a poderosa munição antiaérea.

Salvador/BA registra oito assaltos a ônibus por dia, modalidade criminosa que cresce de forma assustadora em Belém e Ananindeua/PA; em comum, a indiferença dos criminosos para as câmeras de segurança instaladas nos coletivos, pouco importando se são ou não identificados pela polícia.

À ação bandida corresponde uma reação da sociedade vitimada, que ocorre com adaptações na rotina de vida para controle de perdas. Assim, os caixas eletrônicos vão rareando nos estabelecimentos comerciais, que gastam cada vez mais em soluções de segurança que pouco aliviam o afoitamento de criminosos.

Aconselhadas por especialistas em segurança, o que é bem razoável, as pessoas sabem que não devem reagir aos criminosos e se render de forma absoluta, sem esboçar qualquer atitude que possa contrariá-los, sob pena de despertar a fúria deles e serem abatidas a tiros, não importando o local e circunstantes. Foi assim que aconteceu com um jovem monitor pernambucano que ousou preservar apenas a sua documentação pessoal, por isso baleado por um grupo de quatro assaltantes no interior de um restaurante em Recife. Muitos irão até admitir a “legitimidade” dos bandidos.

Vivemos processo de expansão da síndrome de Estocolmo, nome dado ao estado psicológico de pessoas submetidas a ameaças de morte, cárcere privado, danos físicos e um tempo prolongado de intimidação. Nessa ambientação estressante, em atitude de autopreservação, as pessoas vão incorporando comportamentos de aceitação das regras criminosas, algumas até desenvolvem simpatia por bandidos em razão de terem sido poupadas de gestos mais violentos, desvinculando-se da realidade perigosa e violenta a qual estão submetidas.

Na semana em que o mundo acompanha a chuva de meteoros no espaço, no Rio de Janeiro o céu é cortado por luminosas e poderosas balas traçantes de fuzis disparados por traficantes que brigam por espaços abertos com a morte do coleguinha Playboy. A comunidade que estava sob domínio do traficante morto fecha escolas e lojas comerciais em sinal de respeito, que vem a ser o medo, clara manifestação da síndrome de Estocolmo. Não quer correr o risco de ser considerada desrespeitosa pela organização criminosa enlutada e, por consequência, pelo traficante substituto.

Tags:, , ,

>Link  

COMENTÁRIOS
2

A área de comentários visa promover um debate sobre o assunto tratado na matéria. Comentários com tons ofensivos, preconceituosos e que que firam a ética e a moral não serão liberados.

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do blogueiro.

  1. AYORYA

    A pergunta de um milhão de dólares é qual o motivo, origem, razão, etc., desse medo? Essa pergunta poucos têm a coragem de enfrentar da maneira tecnicamente correta e sem fisiologismos corporativos. No Brasil, os números mostram que está tudo errado em segurança pública, da lei ao executor dessa lei em campo, passando pelo garantismo jurídico e pseudo-intelectuais voltados à causa dos direitos humanos. Nesse teatro de operações, fazer o mínimo de segurança pública é um verdadeiro milagre e ainda tem pessoas que defendem esse modelo. Logo, ainda não chegamos no fim do poço, mas para mim como cidadão e membro desse circo montado pelo art. 144 da CF, a esperança é apenas uma palavra maldita do nosso dicionário, sendo o medo apenas um reflexo de tanta desinformação.

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *