A INCAPACIDADE DE VER O ABSURDO
   Flávio  Saraiva  │     24 de julho de 2015   │     22:10  │  3

A INCAPACIDADE DE VER O ABSURDOLogo no início do dia, somos bombardeados com notícias sobre a expansão da violência no Brasil. Arrombamentos de caixas eletrônicos com explosivos já não são mais novidade, o noticiário apenas vai acompanhando a evolução do modus operandi bandido, cada vez mais ousado e criativo.

No Rio de Janeiro, o uso de retroescavadeiras demoliu a segurança de pequenos empresários, com a destruição da estrutura física dos prédios comerciais para arrastar os terminais eletrônicos com a pá; situação aproveitada por outros ladrões ocasionais que praticam saques de mercadorias e equipamentos restantes. É a maximização da crueldade.

Assaltantes bloqueiam rodovias federais para interceptar carros fortes carregados de dinheiro; tipo de ação, que apesar de espetaculosa,   caminha para a aceitação que temos em relação aos caixas eletrônicos. No entanto, bandido é criativo e se reinventa a cada dia; para melhorar a tática operacional na captura do carro forte, adaptaram veículo roubado blindado com escotilhas para atiradores com armas longas abrir fogo contra o  carro interceptado.

Em hotel de luxo de Brasília, um estelionatário é preso pela 17ª vez, agora com imensa quantidade de cédulas falsas de R$ 100 reais; mais 17 prisões virão  com apenas alguns meses na cadeia, é bom ser malandro e enganar as pessoas, desfrutando dos prazeres que a vida bandida oferece.

Alunos universitários denunciam a falta de segurança nos câmpus, onde entram criminosos de todos os tipos para arrombar carros, assaltar, vender drogas, matar e fazer o que quiserem. O estudante que imaginava o ENEM como a grande dificuldade, agora tem a difícil missão de sobreviver nessa guerra desigual contra violentos bandidos.

Famílias inteiras residentes em conjunto habitacional recém construído no Rio de Janeiro são ameaçadas por traficantes de drogas, que não se importam com as filmagens realizadas por câmeras de segurança e até mesmo de um helicóptero de emissora de tv que documentava a desenvoltura bandida por dias seguidos. Pautado, o secretário de segurança Beltrame informa que está planejando ação policial para a solução do problema. Amanhã aparecerá outra demanda, o foco mudará, e os traficantes permanecerão mandando.

Em entrevista que circula nas redes sociais, o cineasta José Padilha – autor dos filmes Tropa de Elite I e II, e mais outros documentários sobre as mazelas da segurança pública, chega à conclusão de que o brasileiro perdeu a capacidade de enxergar o absurdo. Ameaçado de sequestro, que credita aos maus policiais que se sentiram representados nos dois filmes, resolvera morar em Los Angeles como forma de sobrevivência, ao concluir que não conseguiria arcar com os custos da permanente vigilância de dois homens para ele e cada um de seus familiares, acrescidos de veículos blindados etc.

José Padilha faz um comparativo da capacidade de indignação entre brasileiros e os cidadãos americanos, afirmando que estes jamais aceitariam o fato de um ladrão esfaquear e matar uma vítima para roubar uma bicicleta, projetando que se isso acontecesse no Central Park a cidade de Nova York pararia com multidão protestando nas ruas.

No Rio de Janeiro, a morte de um médico esfaqueado por menores que roubaram sua bicicleta servira apenas de mote para um debate político sobre a redução da maioridade penal. Continua o debate político, a indignação foi passageira.

Em Alagoas, criminosos assassinaram três policiais no período de cinco dias, atingindo as três forças mais efetivas no combate ao crime – Polícia Militar, Federal e Civil. Independente das investigações que lograram êxito com a identificação dos criminosos, circunstâncias e motivações, o fato é que a indignação, basicamente, restringe-se a familiares e colegas policiais. Chega-se ao ponto de um site de notícias anunciar, em chamada de destaque, que um dos policiais assassinados fora preso em operação de sua própria polícia, como se a vida dele fosse menor que as motivações que o levaram à prisão.

Em áudio sob investigação, a conversa entre os matadores expõe a pouca efetividade do endurecimento da lei aprovada há menos de um mês, que considera hediondo o assassinato de policiais. Pouco importa para a bandidagem, que avança a passos largos sob os olhares de quem não consegue enxergar o absurdo.

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COMENTÁRIOS
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  1. santos

    parabéns! perfeita a sua análise,mas, na minha opinião, o crime organizado só prospera porque existe autoridades em todos os poderes constituídos envolvidas, de uma forma ou de outra.Logo, enquanto esse modelo de Estado perdurar não existe escapatória.Como mudar,quem sabe a sociedade um dia consiga enxergar, só depende dela.

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