ESPETÁCULO DOS HORRORES
   Flávio  Saraiva  │     6 de abril de 2015   │     23:22  │  0

ESPETÁCULO DOS HORRORESNascido e criado em Bebedouro, tinha no futebol uma das poucas diversões acessíveis, tanto para jogar como para assistir aos jogos, quando podia.  O CSA era o clube querido por influência direta da proximidade do Estádio Gustavo Paiva e dos meus tios, torcedores doentes. Programação semanal definida, treinos coletivos nas tardes de terça e sexta-feira, recreação na manhã de sábado e jogos na quarta-feira e domingo.

Com o Rei Pelé lotado, tive o grande prazer de assistir ao melhor do futebol, mesmo nos campeonatos estaduais, diante de equipes do Interior carentes de investimentos, fato que determinava o título de campeão ao CSA ou CRB, os grandes clubes da Capital. Tempo bom.

Na semana que passou, a TV Gazeta fez bela campanha de divulgação do jogo CSA x CRB, o clássico das multidões do domingo 05/04. Os ídolos dos dois times deram entrevistas, comentaram suas vitórias e o prazer de jogar o grande clássico. O fundo musical contagiante das chamadas convidava a todos para o que seria a grande festa.

Meu sobrinho de 5 anos, recentemente inoculado pelo vírus azulino, lamentava não poder assistir ao grande jogo no estádio, argumentando que iria ter muita briga e seria muito perigoso, mas conformado com a transmissão ao vivo pela TV Gazeta.

Na tarde do jogo, pouco antes do pontapé inicial, ouvi o lamento de um torcedor do CRB que havia sido ameaçado por integrantes da Mancha Azul, torcida organizada do CSA, fazendo com que tirasse a camisa do time do coração e a enfiasse por dentro da bermuda, prevenindo-se de novas ameaças. A preocupação dele aumentou com a possibilidade de vitória do CRB, o que aconteceu, pois sabia que a Mancha iria aterrorizar.

Deixemos os torcedores, vamos aos artistas, produtores e diretores do espetáculo. Iniciado o jogo, parecem esquecer os cumprimentos e apertos de mãos anteriores, iniciando a sequência de horrores. O apito do árbitro sugere ato de feitiço que transforma todos os demais em colegas de arbitragem, iniciando o jogo de encenações de faltas e rolamentos que indicam fraturas expostas em todo o corpo, às vezes até confundem a cena, trocando pernas por joelhos, sempre acompanhados do gesto pedindo o cartão amarelo ou vermelho para o adversário. O treinador enlouquece, desequilíbrio que se estende aos jogadores e torcedores. A guerra está declarada.

No meio da guerra que não é deles, que deveriam estar do lado de fora controlando as ocorrências de segurança pública, o melhor da tropa militar – o BOPE, sendo afrontado por jogadores que pretendiam agredir o árbitro oficial; um deles, encoberto, covardemente chuta tentando atingir um policial, que é socorrido por colega que joga spray de pimenta na cara do agressor. Surgem as críticas sobre o despreparo policial na contenção dos artistas raivosos; como se polícia fosse feita para apanhar.

A plateia não se contém, vibra quebrando cadeiras, destruindo parte da arena, indicando o que irá acontecer no segundo ato, já planejado pelas redes sociais – a saída das torcidas organizadas, eletrizante sequência de ameaças, pontapés, socos, garrafadas, tiros e outros efeitos especiais insanos.

Quarta-feira tem mais espetáculo, dos horrores.

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