A MENINA E O MONSTRO
   Flávio  Saraiva  │     1 de fevereiro de 2015   │     10:27  │  1

A MENINA E O MONSTRONoite de sexta-feira, ano de 1999, plantão policial na Delegacia Regional de Delmiro Gouveia, recebo a ocorrência do crime de estupro que vitimara uma menina, com a guarnição policial militar apresentando o autor, um homem com cerca de 40 anos de idade.  Fico logo incomodado, não tinha muita habilidade para conduzir esse tipo de ocorrência, não dispunha de agente policial mulher para ouvir a vítima. Mas nada é tão ruim que não possa piorar, a vítima era uma menina de oito anos de idade e o autor o próprio pai.

O incômodo se transforma em indignação, sentimento que tinha o dever de controlar, principalmente na condição de autoridade policial. É difícil, imagino logo que existam outras vítimas; se teve coragem de estuprar a própria filha imagine a filha dos outros.

O pai estuprador tenta justificar o injustificável, falando mansamente alegava versão fantasiosa da filha, mas a continuidade do prévio interrogatório vai comprovando a autoria do ato monstruoso.

Documentando o auto de prisão em flagrante, escutei os militares, as testemunhas, como se fosse uma preparação para ouvir a menina vítima; torcia para que aparecesse alguém para transferir a responsabilidade, não tinha como. A criança entra na sala, aquele ser pequeno de olhar triste e inocente ampliava meus sentimentos de revolta.

Ao escrever este texto volto a sentir o mesmo incômodo de quando documentava as declarações da menina, sobre os detalhes da crueldade do monstro no ato sexual.

Passados dois anos, assumindo a titularidade da Delegacia de Piranhas, instalada de frente para o cemitério municipal, sou surpreendido com um vulto no escuro que se aproxima descendo pela capoeira e em minha direção; quando iluminado, a imagem revela o monstro que havia estuprado a própria filha, chegando para dormir na prisão, já gozando dos benefícios da progressão de regime da pena.

Naquele momento, frente a frente com o monstro, sem testemunhas, cemitério do lado, confesso que fui tomado por sentimento que indicava fazer justiça com as próprias mãos. Contido, indiquei o caminho do xadrez, que ele já conhecia, deixando-o trancado com a sua culpa, se é que admitia tê-la.

Depois dessa ocorrência, reconheci não ter condição emocional e competência para ouvir vítimas de estupro, sempre recorrendo à sensibilidade de policiais femininas, evitando riscos de causar mais constrangimentos a elas, que voltam à cena do crime para relatar a monstruosidade de um homem para outro homem.

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