VIOLÊNCIA E INDIGNAÇÃO
   Flávio  Saraiva  │     21 de novembro de 2014   │     7:06  │  2

VIOLÊNCIA E INDIGNAÇÃOSegundo o Fórum Nacional de Segurança Pública, cerca de 5% do PIB nacional são gastos em ações que objetivam administrar a onda de violência que toma conta do país.

Na administração pública, esses gastos podem ser observados na construção de unidades policiais, prisões, compras de equipamentos, viaturas, armas, aumento dos efetivos e treinamentos para o enfrentamento da criminalidade.

O particular, para sobreviver em seu lar, tem que instalar grades em todas as portas e janelas, sistemas monitorados de câmeras e alarmes e, se possível, enfrentar rigoroso processo para aquisição e registro de uma arma de fogo para sua proteção. Há corrente contrária à propriedade de arma na ambientação doméstica, argumentando que apenas serve para armar bandido que surpreende as vítimas com desproporcional habilidade no manejo do objeto letal. Talvez por desconhecer que bandido também tem medo, principalmente de inesperada reação de vítima que acreditava estar desarmada, contrariando a proposta nacional pelo desarmamento.

O empresário, em atitude heroica lutando pela sobrevivência no enfrentamento da carga tributária nacional, ainda tem que contabilizar na planilha de custos os gastos com a segurança do negócio, processo que se inicia na instalação de equipamentos físicos e eletrônicos de prevenção, passando pela contratação de funcionários e a contínua auditoria no controle de perdas, originadas nas falhas dos sistemas protetivos. A insegurança atinge pequenas empresas e grandes negócios.

O cidadão, independente da classe social, é vítima da violência em qualquer que seja a ambientação – ônibus, escolas, clínicas e hospitais, shoppings, estádios e praças esportivas, hotéis, pousadas, praias; não é poupado nem depois da morte, pois há quadrilhas especializadas em violar sepulturas para roubar os pertences do defunto. A cremação é a alternativa para não ser vilipendiado no túmulo, mas custa caro.

Acredito que todos temos essa compreensão da dimensão do impacto da violência nas nossas vidas, mas caminhamos para um processo de aceitação que sugere a subtração da capacidade de se indignar,  sentimento perigoso, para o qual cabe o ensinamento do poeta Augusto Branco: “Quando eu perder a capacidade de indignar-me ante a hipocrisia e as injustiças deste mundo, enterre-me: por certo que já estou morto”.

Escrevo este post após leitura de duas matérias policiais que tratavam de dois homicídios que vitimaram jovens com tiros em São Miguel e Arapiraca, dentro de suas residências e com o triste testemunho de seus pais. Eles eram representantes da geração nem-nem, não estudavam e não trabalhavam. Possivelmente, se deslumbraram com os atrativos de empreendimentos no crime, vendo a prosperidade de criminosos em seu entorno.

Viver é estar sob ameaça o tempo todo; indignar-se é atitude de sobrevivência.

Tags:, , ,

>Link  

COMENTÁRIOS
2

A área de comentários visa promover um debate sobre o assunto tratado na matéria. Comentários com tons ofensivos, preconceituosos e que que firam a ética e a moral não serão liberados.

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do blogueiro.

  1. Pedro Ernesto Firmiano e Silva

    Ótima postagem. Concordo em tudo o que foi escrito, penso que está ocorrendo uma inversão, onde quem está comandando é o criminoso, ficando a sociedade e a polícia (muitas das vezes, mal equiparada ao combate a criminalidade, onde os criminosos tem equipamentos por vezes mais letais do que o do próprio Estado) a mercê da bandidagem. Não só aqui em Alagoas (considerado um Estado bastante violento), mas também em todo território nacional precisa de mudança, o bandido é quem deve temer e não a sociedade.

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *