COM SUOR E TRABALHO
   Flávio  Saraiva  │     1 de junho de 2014   │     7:05  │  5

COM TRABALHO E SUORMeu pai nasceu e foi criado no Povoado Chã do Brejo, zona rural de Anadia, filho de agricultores que formaram grande família sustentada pelos poucos rendimentos que a  roça proporcionava. Os muitos irmãos tinham fenótipos tão diferenciados  que variavam do moreno Tio Duncha às branquelas tias de olhos claros Marilene e Luizinha; o primeiro, hoje, poderia usufruir de direitos (cotas) oriundos de ações afirmativas de reparação à desigualdade  racial, mas negados às segundas, conflito familiar de difícil gerenciamento para os avós Mané Piano e Dedé.

Sem Bolsa Família, sem Minha Casa Minha Vida e sem direito de invadir terra alheia para ocupar, sem poder contar com cestas básicas doadas pelo governo, muitas vezes obtidas após negociação para desbloqueio de rodovias e outros protestos, restava aos jovens, pouco letrados, aventurar em Maceió.  Os filhos do velho Piano não viram e nem botaram muita dificuldade, ralavam desde cedo, sabiam o que era suor e trabalho; meu pai logo conseguiu, junto com o irmão gêmeo, emprego em loja comercial como vendedor, um céu para quem era domador de burro.

O destino promoveu o encontro que gerou a minha vida e a de mais quatro irmãos, educados pela mão forte de minha mãe, também oriunda de família pobre do bairro de Bebedouro. Casa de aluguel, salário suficiente para assar e comer e oferecer aos filhos a educação formal em escola pública que funcionava. Os alugueis mensais nunca autorizaram meus pais a pensar em invadir prédios públicos ou privados para morar e se livrar do desembolso periódico.

Com muita disposição para trabalhar, disciplina para poupar e vontade de empreender, meus pais conseguiram comprar um velho caminhão que deram a eles a condição de empresários.  Mas o caminhão era velho, quebrava muito e os reflexos chegavam na limitação das despesas domésticas, tão bem administradas pela minha mãe, que alegremente encontrava alternativas, substituindo o feijão pelo inhame, a galinha e carne pelo sururu – privilegiado recurso ofertado pela lagoa, rica fonte de fosfato e instrumento de sociabilidade, juntando vizinhos  para tirar a lama da casca, antes de cozinhar. Passando pelo Dique-Estrada, chego a lembrar dos velhos tempos.

Certo dia, o velho caminhão “faltou freio” descendo a ladeira e virou, resultando em perda total no que não havia muito o que perder, mas ali se fora a fonte de sustento da família, desespero. Tenho limitações de crença religiosa, mas sempre ouvi dizer que Deus ajuda quem cedo madruga e trabalha, e ela apareceu com a oferta de venda de caminhão usado da Usina Campo Verde, a ser pago com o frete de transporte da cana. Meu pai virou um monstro, ritmo de trabalho 24/7 – 24 horas nos 07 dias da semana; gostou da empreitada e se habilitou a comprar o segundo caminhão, pago nas mesmas condições. Mas os caminhões eram movidos a gasolina e a crise no petróleo inviabilizou o uso deles, valiam quase nada; mudança de planos, troca em caminhão velho que não resistiria a vistoria mínima, mas movido a diesel. De volta a alegria, pintamos o lata velha a pincel e retomada do trabalho.

O empreendedorismo do meu pai o levou a vislumbrar outro negócio – um bar. Trocou o caminhão e o resto de uma casa (digo resto, pois era de taipa e numa enxurrada foram levados três quartos e a sala), numa pequena mercearia na Ladeira do Calmon, em Bebedouro, transformada no Bar do Beny. O talento na cozinha e a vontade de trabalhar da minha mãe contribuíram muito para o sucesso do novo empreendimento, carregava nos braços marcas de queimaduras das frituras, mas para ela eram como se fossem belíssimas tatuagens, fruto da disposição para encontrar alegria em ambientação onde acomodados viriam apenas dificuldades.

Meu pai morreu cedo, aos 57 anos; minha mãe, aos 75, continua ofertando alegria, invejável disposição e muito mais, o valor da conquista oriunda do trabalho. Não tenho o direito de duvidar se meus pais teriam a mesma disposição, se naquele tempo fossem ofertadas tantas bolsas e possibilidades de invadir e se apropriar do que é alheio.

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COMENTÁRIOS
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  1. Sílvia Saraiva Stadtler Santos

    Na condição de filha do casal, Beny e Déa,confirmo que,
    mesmo com as dificuldades,recebemos o melhor para sermos
    pessoas dignas e honestas.

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  2. Alexandre Saraiva da Silva

    Na qualidade de filho mais novo do casal, não enfrentei algumas dificuldades vividas por meus irmãos, eles até dizem que eu peguei a fase das “vacas gordas”. Mas não foi bem assim, pois trabalhei de garçom dos 12 aos vinte anos no Bar do Beny, sem saber o que é ir a uma praia aos sábados ou domingos, chegando do colégio direto para trabalhar e abdicando de muitos momentos de lazer para poder ajudar meus pais a sustentar nossa família. E não pensem que eu tenho algum tipo de magoa porque não passei toda minha infância só brincando, pelo contrário, eu sinto muito orgulho de ter ajudado o Beny e a Déa (papai e mamãe) a darem uma vida digna a mim e aos meus quatro irmãos (Flávio, José Cláudio, Silvia e Silvio).

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  3. Gilberto

    Poderia até dar parabéns pelo post, mas entendo que ser honesto, trabalhador e cumpridor de suas obrigações é DEVER e não FACULDADE de todo cidadão. Logo, quem assim procede não está fazendo nada mais que sua obrigação legal e moral. Não vejo vantagem em se vangloriar em ser honesto ou correto.

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  4. CAP ROCHA LIMA

    PARABENS AO DELEGADO FLAVIO SARAIVA E A TODA SUA FAMILIA,EXEMPLO DE HONESTIDADE E DETERMINAÇAO,GRANDE ABRAÇO AO NOBRE FLAVIO SARAIVA E AO COMPANHEIRO DE POLICIA MILITAR ALEXANDRE SARAIVA FORTE OFICIAL DA BRIOSA POLICIA MILITAR DE ALAGOAS

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