TREINAMENTO POLICIAL
   Flávio  Saraiva  │     10 de maio de 2014   │     22:36  │  6

SILHUETAA morte do médico Ricardo Seiti, atingido por disparo de arma de fogo, dentro do 2º. Distrito Policial de Santo André, na Grande São Paulo, em 26/04/14, trouxe ao debate o treinamento de policiais brasileiros.  No Fantástico, revista eletrônica da Rede Globo, uma pessoa entrevistada afirmou, indignada, que o policial brasileiro deveria ser melhor treinado, com instruções que permitissem melhor atuação em situações de crise.

Em unidades policiais da Espanha, Israel e Estados Unidos, a máxima é treinamento árduo preparando para a pior situação, que dificilmente ocorre na mesma magnitude, mas se vier, a administração do evento não representa nenhuma novidade. Na Espanha, treina-se em região desértica, rastejando sobre pedras e galhos secos, onde qualquer barulho produzido pelo aluno policial é punido com flexões e reclamações agressivas, humilhantes. No final do dia, todos os alunos, sem exceção, apresentam joelhos e cotovelos esgaçados, feridas que os acompanham até o final do curso, junto com o ensinamento de saber onde pisar, valiosíssimo em países que registram atos terroristas com uso de explosivos.

Nos treinamentos das equipes SWAT americanas, os alunos policiais são  trancados em casamata para experimentarem os efeitos do gás lacrimogêneo, em quantidade mais do que suficiente para testar limites; a sensação é de cegueira permanente e ânsia de vômito. As pistas de assalto exigem condição física de atleta para percorrê-las; os exercícios de patrulhamento são realizados em diversos tipos de terrenos, escolhidos pelo grau de dificuldade que apresentam, a exemplo de pântanos e o convidativo campo das serpentes. Em Israel, o treinamento sob estresse é a tônica, repetições exaustivas, até mesmo o simples carregamento de pistolas (levar a munição para a câmara),  deixam os alunos com os dedos rasgados e sangrando, sob a argumentação de que a fração de segundo em seu favor poderá significar sobrevivência. As adversidades superadas, ofertam ao policial confiança e indicativo de limite de suas habilidades,  condições físicas e emocionais.

Aqui no Brasil, principalmente nos cursos de formação policial, o aluno não pode ser submetido a situações constrangedoras ou que impliquem em sofrimento físico, com tal abrangência que colocam em risco a carreira de instrutores policiais, passíveis de ações administrativos e judiciais em seu desfavor. Nas instruções de tiro, por recomendação de entidades protetoras de direitos humanos, o alvo, mesmo sendo de papel, não pode ter forma humana, o policial tem que atirar em figuras circulares. Rastejar na lama, no mato, sobre pedras, permanecer em ambiente fechado e com gás, experimentar os efeitos de granadas usadas em distúrbios civis, realizar disparos dentro de viaturas sem baixar os vidros sob cortina de fumaça e som provocadas por fogos de artifício, nem pensar. Alguns instrutores chegam a afirmar que impera a ditadura dos direitos humanos.

O que é obrigatório na formação dos policiais americanos, espanhóis e israelenses, aqui, apenas algumas unidades de operações especiais (frações mínimas das tropas) são submetidas a rigorosos treinamentos, sendo o Caveira do BOPE do Rio de Janeiro o melhor deles, referência mundial em técnicas de patrulhamento e sobrevivência urbana.

Concluída a formação, o policial vai às ruas se deparar com situações de crise para as quais não foi treinado e, sob estresse, a probabilidade de errar é muito grande; os alvos não são mais as figuras circulares de papel, são pessoas gritando, fugindo, ameaçando e/ou atirando com armas de fogo. Não pretendo com essa narrativa justificar o erro do policial paulista que causou a morte do médico, apenas trazer à discussão o treinamento do policial brasileiro.

O filósofo Aristóteles, lá na antiguidade, ensinava: “Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. Excelência, então, não é modo de agir, mas um hábito”.

 

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COMENTÁRIOS
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  1. Roberto Theodosio Brandão

    Li a sua explicação com muito cuidado e concluí que as diferenças no treinamento dos outros Países em comparação com o Brasil é divergente em quase 80%.
    Aqui temos as academias de polícia muito boas porém a nossa Constituição branda, ridícula e covarde não apoia o policial nas suas ações e beneficia o marginal desestimulando a carreira policial. O verdadeiro policial é punido todo dia. O nobre delegado que tem cursos em Israel, Espanha e outros Países fica com um enorme potencial técnico-operacional e não pode usa-lo em sua plenitude. Tudo isto é profundamente lamentável.
    Vamos pagar muito caro pela omissões do poder público acorrentado e algemado pela Constituição Federal. Tudo é proibido contra os bandidos perigosos e deixo uma sugestão aos defensores de bandidos: Leve para sua casa e terão logo o troco de gratidão pois vão te estuprar e depois matar. Entre o bem e o mal até agora vençe o mal e até quando ninguém sabe. Brasil um País de hipócritas!

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    1. Luiz Alfredo

      Prezados,
      Não é em vão que em alguns colégios públicos em Goiânia e DF,onde a violência e baixo rendimento escolar foram erradicados com a inclusão da PM, sendo assim fica mais que provado que onde tem disciplina e respeito as coisas andam.
      Realmente nobre Theodósio ,estamos vivendo um momento muito difícil em nosso país,pois a conversinha de politicamente correto tem arrastado as gerações que em teoria seriam o futuro do Brasil para a lama e vemos as forças policiais maquiavelicamente sucateadas e mal treinadas,quando a medicina desportiva diz que seriam necessários de 3.000 à 5.000 tiros para um homem saber manejar bem uma arma tem cursos de formação que os alunos não disparam nem 50 tiros e são jogados nas ruas para limparem as sujeira produzida pela corrupção e desleixo administrativo dos engravatados,depois das coisas darem errado a cornegedoria vem mais de mil para expulsar o praça que é tão vítima quanto a sociedade!!! Tudo hipocrisia e má fé…

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  2. SAMPAIO

    DR.FLÁVIO, LENDO ESSE EXCELENTE TEXTO, ME FEZ RECORDAR DURANTE O ÚLTIMO CURSO DE FORMAÇÃO DE POLICIAIS CIVIS(DELEGADOS, AGENTES E ESCRIVÃES)UMA AUTORIDADE NA QUALIDADE DE INSTRUTOR,CRITICAVA OS TREINAMENTOS E PROCEDIMENTOS DADOS AOS ALUNOS, E QUE NÃO ERAM TÃO RIGOROSOS, MAS QUE FORAM COLOCADOS EM PRATICA DURANTE TODO CURSO. PARA O BEM DE TODOS O CAMARADA PEDIU PARA SAIR!

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  3. verdade

    o problema não está em cursos ou técnicas policiais.nos estados unidos funciona por causa do rigor da lei,lá o criminoso seja ele quem for[ rico ou pobre ]sabe que a lei funciona,que vai da pena de morte e prisão perpetua e outras penas menores,mais são cumpridas.conheço muitos bons policias aqui no brasil com vários cursos em abordagem a veículos a edificações,tiro policial,abordagem a pessoas,técnicas em defesa pessoal,técnicas em gerenciamento de crises e etc.mais estão desmotivados, pois não tem a lei ao seu favor.por esses dias vão ganhar as ruas 70 presos,que sai do regime fechado,para o semi aberto.ai eu pergunto,o trabalho da policia pra prender esses bandidos aonde fica? quem vai dar segurança a esses policias que fizeram a prisão desses 70 presos? quem vai dar segurança aos familiares desses policiais que prenderam esses 70 presos?a lei no brasil só beneficia ao bandido.

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  4. karla

    O BRASIL, É UM PAIS QUE O CIRCULO DE POLÍCIA NÃO É COMPLETO,POIS MENOS DE TRINTA POR CENTO DAS OCORRÊNCIAS SÃO EFETIVAMENTE APURADAS,SÓ NO BRASIL QUE AS POLÍCIAS SÃO MEIAS POLÍCIAS,POIS AO CHEGAR O PM COM UM MENOR NA DELEGACIA PASSA DE DUAS A TRES HORAS,POIS NO CASO DE MENORES SÓ FAZ REGISTRAR A OCORRÊNCIA DEPOIS É LIBERADO.VIRA SÓ MAIS UMA OCORRÈNCIA..PORTANTO NA ATIVIDADE POLICIAL NO NOSSO PAIS EXISTE ESTE GRANDE PROBLEMA A SER RESOVIDO DE FORMA URGENTES POR AS CORPORAÇÕES NÃO QUEREM PERDER SEUS PODERES PARA UM MELHOR SERVIÇO PUBLICO,è SERVIÇO NÃO PODER.

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  5. Papa Mike

    Acredito que nenhum dos senhores que postou comentários acima seja policial no Brasil ou sequer tenha contato com policiais brasileiros de verdade.

    Também creio que ninguém que tenha emitido sua opinião acima tenha noção do treinamento oferecido as policiais dos países citados na reportagem mencionada nesse artigo.

    A realidade é que o mais existe nos treinamentos básicos das polícias brasileiras são situações constrangedoras e sofrimento físico aos alunos, os cursos de formação de policiais (sobretudo das polícias militares) tem isso em excesso, um PM frequenta a academia por uma média de 6 a 9 meses para se formar, um oficial de polícia americano tem um curso básico de 3 meses em média.

    O diferencial é que enquanto a formação básica policial no EUA é focada em aspectos técnicos, uso de armas, defesa pessoal, legislação local e nacional, e trato com o cidadão a polícia brasileira basicamente faz o aluno policial passar esse tempo todo correndo, pagando flexões, fazendo faxina e sendo humilhado por seus superiores e tendo um mínimo de instruções técnicas e de tiro, rotina bem parecida com o que se vive nos quartéis das forças armadas, ao fim do curso básico o policial americano está qualificado a atuar na atividade fim, o aluno soldado aprendeu muito pouco ou nada sobre a função(sem saber ao menos operar sua arma com segurança) e terá que ser aprendida na prática.

    A matéria da Globo também é equivocada ao comparar os treinamentos de equipes de elite de vários países com o treinamento do policial convencional brasileiro, o correto seria comparar os policiais convencionais dos países citados com os nossos convencionais.

    As elites das policias brasileiras tem um treinamento altamente militarizado (mesmo os cursos da P.Civil), herança das tropas de Comandos das Forças Armadas que ministraram os primeiros cursos de operações policiais para as polícias brasileiras, são muito mais rústicos, até violentos que os das demais tropas de outros países e não os fazem das tropas brasileiras mais eficientes que as outras.

    Um curso básico da SWAT dura entre 3 e 4 semanas, existem cursos de tropas especializadas (Choque, Força Tática, Motopatrulha, etc) nas PM que duram uma média 15 a 30 dias onde basicamente o aluno “rala” esse período, praticamente não recebe nenhum treinamento mais especializado, mas por ter aguentado a ralação do curso mostrou que é durão o bastante para pertencer aquela unidade especial e quando vai pra rua se da conta do quão deficitária é sua formação.

    Diante do exposto acredito que a má qualidade do serviço policial brasileiro se deve sim a formação dos policiais aos quais é oferecido pouquíssimo instrução técnica e muito assedio moral e sofrimento físico, isso produz um policial violento e psicologicamente e tecnicamente despreparado para o trabalho.

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