O XERIFE CONTRA O TRÁFICO
   Flávio  Saraiva  │     28 de abril de 2014   │     23:36  │  4

O XERIFE CONTRA O TRÁFICOO brasileiro estava se acostumando com as cenas de ocupação das favelas do Rio de Janeiro pelas forças policiais, sempre precedidas de avisos das autoridades da segurança pública, objetivando evitar o confronto a tiros com traficantes de drogas. A mais emblemática e que merecera a maior cobertura pela mídia fora a ocupação do Complexo do Alemão em 28/11/2010, um domingo, concluída com o pavilhão nacional fincado no alto do morro.  A cena inesquecível é a de dezenas de bandidos armados com fuzis correndo e se amontoando na carroceira de uma camionete preta roubada. A vitória do bem contra o mal, de policiais contra bandidos.

As ocupações foram seguidas pelas instalações das Unidades de Polícia Pacificadora – UPPs, bases militares abrigadas em containers, fixando frações policiais nas comunidades antes comandadas por bandidos. Hoje, são 37 com previsão de fechar este ano com  40 instaladas.

Com índices de redução de homicídio bastante animadores, o modelo de intervenção policial representado pelas UPPs passara a conferir ao secretário de segurança pública – Delegado de Polícia Federal José Mariano Beltrame, e ao governo a que serve, certificado de êxito não esperado pelos mais otimistas aliados políticos, quiçá pelos adversários. Há registro do secretário Beltrame sendo aplaudido por passageiros quando embarcava em voo comercial, passou a ser palestrante bastante requisitado, publicou livro (Todo Dia É Segunda-feira), muito visível na mídia, o mais longevo no difícil cargo, atributos que o elevaram à condição de pré-candidato a cargo político nas próximas eleições.

Mas, na vida de um gestor da segurança pública nem tudo são flores, elogios e reconhecimento. Em julho do ano passado, o noticiário nacional dá destaque ao desaparecimento do ajudante de pedreiro Amarildo, após passagem e embarque em viatura policial de uma UPP da Rocinha. A pergunta “Onde está o Amarildo?” , em forma de cobrança, é repetida em manifestações populares. Tanto tempo desaparecido, Amarildo fora considerado morto e as investigações policiais culminaram com o indiciamento de 25 policiais militares  que responderão pelos crimes de homicídio e ocultação de cadáver, solução  legal que não satisfaz aos mais radicais, que parecem querer o linchamento deles e o fim das UPPs, seguido da proposta de desmilitarização das polícias.

Em 22/04/14, o dançarino Douglas Rafael (DG) do programa Esquenta da TV Globo é morto com um tiro disparado no confronto entre policiais militares e traficantes da comunidade Pavão-Pavãozinho, comandados pelo traficante conhecido por Pitbull.  A comunidade protesta queimando veículos e outros materiais bloqueando as vias de acesso, a mãe da vítima expressa toda a indignação pela irreparável perda, desacredita a perícia e apresenta os culpados – policiais militares das UPPs, desconsiderando qualquer que seja o resultado das investigações e a possibilidade do filho ter sido morto por tiro disparado por traficante que, segundo policiais na ocorrência, estaria em sua companhia antes de empreender fuga saltando nas lajes de prédios.

O blogueiro da Veja  Felipe Moura Brasil, apresenta os indicativos da ligação do dançarino DG com os traficantes da comunidade Pavão-Pavãozinho, quando ele postara no facebook em 18/01/14, o seu lamento pela morte em tiroteio do traficante conhecido por Cachorrão, ocorrida no dia anterior, expressado dessa forma: “PPG TÁ DE LUTO, E OS AMIGOS CHEIO DE ODIO NA VEIA, MAS TARDE O BICO VAI FAZER BARULHO… #SAUDADES ETERNAS CACHORRÃO ! Com a ajuda de um policial, Felipe traduziu a mensagem:

“PPG” é a dita “comunidade” Pavão, Pavãozinho e Galo.

“Bicos” são fuzis de uso restrito das forças armadas, de grosso calibre (7,62mm e 556mm) e altíssima letalidade, como COLT AR 15, M-16, AK-47, G3 e outros.

– “Os amigos” são os integrantes das quadrilhas que traficam drogas, cometem homicídios, sequestros, roubos e crimes variados.

– “Fazer barulho” é efetuar centenas de disparos, aterrorizando a população ordeira.

“Cheio de ódio na veia” eu preciso explicar? Não é decerto o sentimento lindo de “miguxos” que querem obedecer a lei naquela noite e nos dias (meses e anos…) seguintes.

Na noite de 27/04/14, Arlinda Bezerra de Assis, de 71 anos de idade, morre atingida por tiro quando tentava proteger o neto com seu corpo, durante tiroteio entre policiais e traficantes na comunidade Nova Brasília do Complexo de Alemão, iniciado pelos bandidos. Na seqüência, protestos contra policiais, tiros e fogo nas UPPs, veículos incendiados e mais um crise para Beltrame gerenciar.

No meio dessas tragédias, 03 policiais militares lotados nas UPPs foram assassinados por traficantes – 02 homens e 01 mulher, com cobertura da mídia nacional, mas sem nenhuma manifestação de artistas e movimentos sociais protestando contra a execução de servidores públicos que põem a vida em risco na defesa deles. Até a própria tropa, com manifestações liliputianas de indignação, parece acreditar que policia é para morrer,

O que nos parece clara é a guerra em busca de território perdido por traficantes de drogas, uma história que se repete, só que o adversário agora é o Estado, representado por um Xerife determinado – João Mariano Beltrame. Não sei se o governador Pezão terá coragem de marchar com seu guerreiro, em busca da consolidação de um modelo de intervenção policial que está dando certo, os adversários dele são outros.

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COMENTÁRIOS
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  1. Roberto Theodosio Brandão

    Essa guerra se propaga pelo território nacional e a grosso modo parece não haver solução mesmo a longo prazo. A tática dos traficantes de drogas e armas agora é usar a população civil e lançando-a contra as forças policiais tirando grande proveito com esta modalidade pois sempre sairá alguém morto ou gravemente ferido. Praticamente possuem superioridade financeira imediata e poder de mando além do poder da vida e da morte em julgamentos relâmpagos. O tráfico é um comércio fantástico e eles não querem perder por nada. No meu ver perdemos esta guerra pois o poder público é muito covarde e não quer perder votos. A coisa vai piorar a partir de Maio e nem consigo ver se chegamos ao final do ano sem grandes traumas. Esta é a nossa Guerra Civil com tiro, porrada e bomba segundo a pensadora Waleska. Estamos perdidos.

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  2. Antonio Carlos

    A cada ano a situação no Brasil, piora em todos os níveis: segurança, educação, saúde pública. Como também a cada eleição piora o nível dos eleitos para ocupar os poderes Legislativos e Executivo (municipal, estadual e federal). Existe uma campanha para desmoralizar cotidianamente o policial, com apoio do PT, imprensa, intelectuais de esquerda, que não querem que os bandidos que operam na política, possam serem penalizados, com sentimento de culpa, pois roubam dos cofres públicos e não querem punir os bandidos da periferia, para não pagarem o mesmo preço, e serem igualados aos mesmos. O bandido da política, é o pior dos bandidos, pois rouba para ter poder e ficar mais rico. Realmente, estamos todos perdidos.

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  3. Luiz Alfredo

    Infelizmente estamos pagando as consequências do eleitorado brasileiro ter escolhido para presidência do país e outros cargos políticos pessoas que não tem curriculum e sim ficha criminal.Estou cansado de ver fotos de procurados pela Interpol,pedófilos e demais categorias de picaretas ao lado dos petralhas,posando de autoridade.
    O combate as drogas deveria ser encarrado como uma verdadeira guerra química onde não se poupa os inimigos.Infelizmente temos visto jovens e muitos pais de família serem executados da mesma forma que pisamos em baratas e a lei vigente do governo petista que causa impacto e perda financeira é a lei dos bandidos:NÃO REAJAM!!!

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  4. Glauco Buarque

    A inversão de valores morais em nossa sociedade é algo que beirá o absurdo, a pretexto de democracia as pessoas estão transformando a vida em um tormento, pois qual o pai ou mãe que se sente seguro e confortável em criar um filho?. O que a imprensa fez com a morte deste “dançarino” foi força as pessoas a terem uma interpretação totalmente distorcida do que realmente é importante. Aliás, é da imprensa um grande percentual de desorganização de nossa sociedade.
    Mas caro dr. Flávio, eu sou esperançoso que as pessoas de bem de nossa sociedade brasileira se rebele com a segurança publica, e que aja uma revolução politica/organizacional na maneira de se fazer segurança publica.

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