CONFRONTO DESIGUAL
   Flávio  Saraiva  │     21 de abril de 2014   │     17:53  │  3

CONFRONTO DESIGUALEles cresceram e iniciaram os estudos  juntos. Um deles, desde cedo, se interessara pela vida escolar,  conseguindo notas que o destacava e facilitava a aprovação, mas também se sobressaía nas atividades esportivas da unidade de ensino. Nesse ritmo, longe das drogas e do uso abusivo de álcool e fumo, conseguira concluir o ensino médio e ingresso em universidade pública. Com a formação escolar bem encaminhada, tivera convite de emprego para ajudar aos pais no orçamento doméstico, mas estes, que não tiveram as mesmas oportunidades do filho em face da limitação na educação formal, decidiram que o rebento iria continuar só estudando. O filho, mesmo contrariado, decidira seguir o conselho dos pais, sabendo que ali estaria também limitando a possibilidade de compra dos materiais de consumo da idade – tênis, boné, camiseta, bermuda, calca, joias e uma motoquinha para dar um rolé com as meninas e colegas.

O outro, preferira outro caminho, a escola para ele nunca fora ambiente para estudos, recusava usar a farda e não dispensava o boné com a viseira virada para trás, chegava atrasado, sentava na última fila,  saía da sala de aula constantemente, mais das vezes para fumar, transmitia excessiva ansiedade, desrespeitava professores, só conseguindo aprovação por imposição de um sistema que não permite o trauma da reprovação ao jovem que promete no quesito transgressão. Essa qualidade logo fora observada por alguns colegas com empreendimentos no crime, principalmente, quando o vira jogando futebol com extrema violência, punida com expulsões de campo, precedidas de luta corporal com os adversários; chegara ao extremo de jogar uma partida com um canivete no calção, usado numa das brigas para ferir colega de infância, mas, adversário no momento.

O que levara tanto tempo estudando, conseguira concluir o curso de direito e fora aprovado em concurso público para ingresso na carreira policial.  Passou por testes psicotécnicos e psicológicos, oportunidade em que foram notadas características importantes ao exercício profissional – liderança, dedicação, sociabilidade, grande capacidade de trabalho em grupo e controle emocional. Fora submetido  a exames de capacidade física, médicos e toxicológicos, este para saber se usara drogas ilícitas; depois disso tudo, curso de formação policial, com cerca de 800 horas de aulas teóricas e práticas. No curso, sua capacidade de liderança se mostrara em maior intensidade, o manejo de armas fogo, a precisão nos tiros, a direção de viatura policial com segurança, o uso moderado da força e verbalização nas prisões simuladas, conjunto que destacara o novo policial. Com essas habilidades o promissor policial fora designado para patrulhar nas ruas, compondo equipe tática de maior visibilidade na corporação.

O colega de infância e escola, sem conseguir dominar a intensa ansiedade,  ainda menor de idade, aceitara de pronto o convite para participar de grupo criminoso especializado em roubo de veículos e de residências. Fora apreendido e internado em unidade para menores, saíra rápido e voltara às ruas e ao bando com currículo valorizado, tinha participado e liderado rebelião em que incendiou as instalações de correição.

Certo dia eles se encontram numa ocorrência policial, o jovem criminoso e mais dois se deslocam em excessiva velocidade com veículo roubado na orla marítima de ponto turístico movimentado, chamando a  atenção de todos, inclusive da guarnição policial comandada pelo colega de infância, que prontamente liga o rotativo luminoso, sirene e microfone anunciando a perseguição e determinação de parada, não atendida pelo grupo criminoso.

A condução criminosa não indica nenhum cuidado com quem quer que seja, corta sinais luminosos de parada, não respeita faixas de pedestres e vias preferenciais, abalroa outros veículos, usando o roubado como arma. No interior, o diálogo segue no ritmo da inconsequência – passa por cima, bota pra arrombar, atira nesses caras…

Na viatura policial, o líder recorda dos ensinamentos do uso progressivo da força, nos possíveis danos ao veículo que conduz, na obediência às leis de trânsito, na preservação de vidas e o compromisso de prender o grupo criminoso; um mais ansioso, apela ao líder a ordem para atirar, mas não consegue, continua argumentando, acrescentando que pode fazer os disparos sem expor o corpo para fora do carro e com segurança, quebrando o para-brisas e diminuindo as chances de erro no alvo à frente. O diálogo é interrompido com três disparos que vêm dos criminosos perfurando o para-brisas da viatura e, por sorte extrema, não atinge nenhum policial. Em seguida, os policiais reagem, ferem os criminosos que se apavoram e param colidindo o veiculo roubado num prédio.

O policial quase não reconhece o colega de infância, anuncia a prisão e seus direitos, lamenta o incidente e se prepara para documentar a ocorrência, justificar os danos na viatura, conduzi-los à unidade de emergência e instituto médico legal para exames de corpo de delito; cuidado necessário para se defender de possíveis acusações de tortura aos presos.

Os dois se despedem na certeza de um novo encontro e possível confronto que, como vimos, desigual.  Os heroicos policiais serão tratados como meros cumpridores do dever ao preservar a vida de criminosos em combate; os bandidos, na rápida passagem pelo cárcere, distinção pela ousadia e filiação honrosa ao partido do crime.

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COMENTÁRIOS
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  1. Deraldo Francisco

    Olá, Saraiva!

    É verdade. Conheço um monte desses casos. Amigo, parabéns pelo texto. Você está falando muito bem com a alma.

    Só uma pergunta: “esse policial do texto é você?”

    Um abraço

    Deraldo

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  2. Rodrigo Sarmento

    Muito bom o texto! Sensato, coerente, reflexo da realidade. Leio seus artigos toda semana. Parabéns por mais esse!

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  3. Luiz Alfredo

    Ficou muito bem exemplificada as qualidades e características da trajetória de cada um dos jovens.Muitos pais e educadores não atentam aos sinais que os jovens apresentam e geralmente só lhes resta o arrependimento.
    Parabéns pelo texto e principalmente a forma madura e observadora de sintetizar as coisas.

    Reply

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