FALSO SEQUESTRO
   Flávio  Saraiva  │     31 de janeiro de 2014   │     0:34  │  5

FALSO SEQUESTROEm 2007, quando titular da Diretoria de Recursos Especiais da Polícia Civil, tive a oportunidade de investigar e combater sequestros que se alastravam pelo Estado.  Estudei as modalidades de sequestro e os sequestradores, modos de atuação e formação no crime. No primeiro caso, em 1989, poderiam ser observados indicativos de organização e planejamento do sequestro – seleção da vítima, definição do cativeiro e negociação demorada para pagamento de altos valores de resgate. Na investigação, polícia sem nenhuma experiência na gestão do novo evento criminoso.

No final dos anos 90, o Estado de Alagoas negociara com o governo federal a construção do presídio Baldomero Cavalcante, que se apresentava como de segurança máxima, ofertando como contrapartida a custódia de perigosos criminosos vindos de outras unidades da Federação. Com o tempo, a negociação se revelara desastrosa, os novos inquilinos do sistema penitenciário eram bandidos experientes, entre eles os irmãos Oliveira – sequestradores do irmão da dupla sertaneja Zezé de Camargo e Luciano, que implantaram a escola de sequestro, tendo como alunos criminosos comuns que viram ali a oportunidade de especialização. Quanto ao presídio, o histórico de fugas demonstrou ser de segurança mínima.

Na escola foram formados os irmãos Nau e Tonho Preto, Marcos Capeta, Cow, Marcelo Pernambucano, Cupicha, Bau, Luiz Coroa e outros, marcando a fase da banalização dos sequestros – amadorismo, sem planejamento, alvos aleatórios, cativeiro móvel, negociação rápida, pagamento do resgate com 5% (no máximo) do valor inicialmente exigido.  A polícia já apresentava certo conhecimento na investigação e conseguira prender muitos deles, outros morreram em combate, mas a sensação de insegurança já estava instalada.

A onda de sequestros se espalhava pelo país, aproveitando-se disso, presos comuns em unidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Goiás desenvolveram outra modalidade criminosa – o falso sequestro, iniciada com ligação telefônica à vítima residente em outro Estado, geralmente comunicando ocorrência de acidente de trânsito ou conhecimento de ameaça de morte, oportunidade em que o criminoso colhe dados importantes fornecidos inocentemente pela própria, para em seguida anunciar o anúncio do falso sequestro. Com a simulação de gritos e choros do suposto familiar sequestrado, a negociação é instalada, a quantia pedida para o pagamento do resgate é pequena, a ser depositada rapidamente em banco, ainda no horário normal de funcionamento. Nos finais de semana e feriados, os falsos sequestradores negociam o pagamento em créditos para recarga de telefone celular.

Sabendo como os falsos sequestradores agem, são sugeridas as seguintes medidas de segurança:

– Não atender ligações com número de telefone “confidencial”;

– Ao atender ligações não informe seu nome, a obrigação é de quem liga;

– Não informe dados pessoais a supostos representantes de entidades bancárias, órgãos públicos,  institutos de pesquisa etc.

– Caso não consiga interromper a conversa com o criminoso no início, em razão da suposta gravidade do caso relatado por ele, anote incoerências, informe dados que o induza a erro, observe sotaque, duvide e questione.

– A mais simples, desligue o telefone e ligue imediatamente para a pessoa supostamente sequestrada.  Caso não consiga de imediato, não se desespere, tente contato com pessoas do relacionamento – amigos, colegas de trabalho, escola, clube etc.

Há modalidade de falso sequestro mais arrojada, realizada através de teleconferência, que exige do criminoso o conhecimento prévio dos números de telefones da vítima e parente dela supostamente sequestrado, mantendo-os ligados ao mesmo tempo. As recomendações são praticamente as mesmas; desligue o telefone e tente localizar o familiar por qualquer outro meio.

O verdadeiro sequestro é negociado de forma diferente, primeiro é notado o desaparecimento da vítima, depois vêm as ligações telefônicas de curta duração anunciando as exigências para o resgate.

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COMENTÁRIOS
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  1. Luiz Alfredo

    Prezado Dr Saraiva,
    É realmente muito frustante ver que as ações do governo federal no que toca a segurança pública vem recheado de segundas intenções, pois a exemplo do intercambio criminal promovido pelas transferências de bandidos do naipe de Fernandinho Beira Mar,dentre muitos outros só servem para implantar a nata da criminalidade na outrora pacata Alagoas.
    Cansa ver que a todo momento estejamos recebendo investimentos que na verdade são presente de grego(cavalo de troia).Espero que os alagoanos voltem os olhos para o senário nacional e vejam que hoje estamos colhendo o que foi plantado no passado.
    Grato pelas informações e instruções abordadas no texto,saúde e sorte a todos.

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  2. Nathalia Moraes

    Dr. Flávio, ao ler relatos como esse, repleto de observações por quem vivencia isso de perto, é que sinto extrema vontade em estudar criminologia! Parabéns pelo blog, sinto verdadeira admiração!

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  3. Vânia L. Domingos

    Fui vítima do falso sequestro, paguei o valor exigido.Fui à delegacia e fiz a ocorrência. Se fôr detectado que os telefonemas foram feitos de presídios tenho como mover ação contra o estado por danos morais.Existe possibilidade deu reaver este dinheiro?
    Fico grata se puder me responder

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