O CRACK NÃO ACIONA O GATILHO
   Flávio  Saraiva  │     26 de novembro de 2013   │     7:00  │  5

O CRACK NÃO ACIONA O GATILHO

O CRACK NÃO ACIONA O GATILHO

São atribuídos às drogas 90% dos crimes de homicídio em Alagoas, principalmente ao crack, subproduto do refino da pasta de coca, cujo produto final é a cocaína. E dessa forma, investigadores policiais, autoridades públicas, estudiosos e palpiteiros logo definem a linha de investigação e autoria, sem, no entanto identificar as reais circunstâncias de cada caso, caindo na confortável vala comum.

Estudiosos americanos, debruçados sobre a impressionante queda nos índices criminais de Nova York, concluíram que grande parte desse sucesso se dera em virtude do combate aos chamados mercados abertos de venda de drogas, aqui no Brasil denominados de bocas de fumo e cracolândias. Em Alagoas, além desses, existem as feiras do troca, do rato, da Guedes, do passarinho, pontos de venda e escambo de drogas e produtos roubados/furtados, aí incluídas armas de fogo e munições. Não demora muito a chegada de explosivos nos lucrativos pontos de vendas.

O fenômeno econômico criminoso é documentado na quase totalidade dos autos de prisão em flagrante lavrados em Maceió, indicando a Feira do Rato como o local de compras mais ativo, o mercado livre do crime. Antes dos anos 2000, a polícia costumava realizar operações nesses locais, apreendendo produtos expostos à venda sem documento fiscal, devolvidos depois de comprovada a propriedade. Isso gerava transtornos aos policiais e a alguns  poucos inocentes vendedores tratados como suspeitos, gerando flagrante constrangimento. Avaliando o conflito entre o que seria procedimento de prevenção criminal e constrangimento, a polícia preferiu evitar o último, deixando o mercado criminoso livre.

A lei que trata dos crimes relacionados ao tráfico e consumo de drogas permite que traficantes usem jovens adolescentes como vendedores que, quando apreendidos, poucos dias depois voltam ao mercado de trabalho, agora com a sensação de impune. Como no Brasil, prostituta beija na boca e tem orgasmo, traficante usa droga e se torna dependente químico, perdendo foco no negócio criminoso que tem rigorosas metas de desempenho, onde o não cumprimento e as dívidas decorrentes são cobradas em processo sumário que culmina com a execução do negligente colaborador. A contabilidade das execuções aponta que a maioria dos colaboradores executados são jovens com 16 a 24 anos de idade.

As denúncias mais comunicadas às polícias são as que indicam os pontos de vendas de drogas que, se processadas, poderão gerar mapa georeferenciado  do tráfico e assim subsidiar atividades de inteligência e consequente intervenção tática para prisões, limitando a área de atuação do traficante. Em Nova York os traficantes foram empurrados para dentro de suas casas, diminuindo a disputa por território e o número de homicídios.

O mercado livre de drogas é o gatilho para a disputa de territórios e quem dispara é o traficante.

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COMENTÁRIOS
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  1. Francisco Suruagy Motta

    Parabéns! Leio todos seus artigos e os acho de uma clareza e objetividade latente. Mas eis que surge uma dúvida: você aponta os problemas, mas ao mesmo tempo propõe as soluções. Qual e onde esta a dificuldade administrativa de implantar tais medidas? Mais uma vez parabéns por este espaço!

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  2. JAQUES JACINTO BRANCO

    O Crak não puxa o gatilho, porém, ele manuseia a arma e faz a(s) vitima(s) enfartar de susto, consequentemente levará a mesma ao óbito. No final das contas mata do mesmo jeito.

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  3. Roberto Theodosio Brandão

    O assunto é muito complexo e pessoas como o Dr.Flávio Saraiva possuem as condições adequadas para comentar e é claro oferecer soluções. Particularmente vejo o flagelo das drogas como um modo de agressão á Segurança Nacional.
    Porque? Um País deduz o seguinte: Já que não posso invadir o Brasil por meios bélicos destruirei sua juventude e abrirei lacunas nas forças armadas, no mercado de trabalho e economia brasileira. Isto vai minando uma nação de modo que em pouco tempo teremos uma nação de alienados e incapazes. É este o meu ponto de vista.

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  4. Luiz Antonio Jardim

    Muito bom artigo. Precisamos “sufocar” o crime em todos os níveis – “Broken Windows!”. Vejo o foco da nossa Defesa Social mais nas consequências que nas causas. Alagoas tem Pressa? Precisamos de Pulso também. Vivemos “apagando incêndios” e assistindo a criminalidade crescer. MUITO BOM doutor Flávio!

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  5. José Heleno

    O artigo é bom, mas não esclarecedor. O problema da violência é sistêmico. O combate ao comércio de drogas e outras mercadorias ilegais é uma das facetas da atuação do Estado pela via do trabalho policial. Porém, o crime é multifacetário. Faltou, obviamente, abordar as questões sociais e econômicas sofríveis da população vulnerável. Esses sim, as verdadeiras turbinas por trás da decolagem do crime organizado e da violência. Tome como exemplo, um dos muitos exemplos, aliás, os conjuntos habitacionais que margeiam o Benedito Bentes II, como o Carminha e o Selma Bandeira. Toda uma população carente foi empurrada para essas áreas, verdadeiras ilhas onde o Poder Público não atua convincentemente. Falta escola profissionalizante, falta unidades de esporte, falta geração de renda, faltam as hortas comunitárias, o saneamento, o transporte. Um cenário desses é um incentivo aos criminosos e traficantes. O artigo foi bem escrito, repito, mas deixou de lado o fato dos governos que se sucedem no Palácio dos Martírios nunca haverem levado o desenvolvimento social e urbano como ponto mais importantes do que repressão. Qualquer ação que não leve em conta tais fatores, não passa de mero ouro de tolo.

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